domingo, 17 de fevereiro de 2008

Carta de Domingo

Para Danilo Godoy


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. (...)” Clarice Lispector in Por não estarem distraídos


(Avenida Paulista)


(Para ler ao som de Sampa, cantada por João Gilberto)

Hoje eu acordei com aquela vontade serena de falar com você. Sei que isto não vai acontecer. Resolvi escrever então. Não sei te escrevo uma carta ou deixo essas linhas jogadas na minha gaveta cheia de textos inacabados. Acho melhor que eu faça diferente desta vez. Tentarei terminar e fazer deste texto uma carta e não algo sem muito pensar que acaba perdido ou em linhas de diários. A carta começa assim:

Hoje eu acordei com uma vontade serena de falar com você. Queria que você estivesse aqui para que com o nosso silêncio tímido, passássemos a noite bebendo vinho sentido a brisa fria da cidade turbilhão. Caminharíamos por aquela avenida que parece infinita. Você com sua cara de frieza e seriedade e eu mesmo com o meu rosto enjoado, tenso e tímido tento arrancar de você um sorriso para quebrar o gelo do primeiro encontro. Hoje depois de tanto tempo penso no que não é e no que não foi. Penso também no que eu não quero que seja. Nem eu nem você. Somos ligados de uma forma quase difícil de descrever. Você agora está longe, naquela cidade quente com nome de Presidente do Brasil e eu aqui tomando um café na Augusta, lembrando dos papos sobre o ser e não ser comum. Lembrando da mulher que nos liga, aquela que há 30 anos atrás foi tirada de nós e que vivia dizendo que não queria ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Ela sempre dizia que preferia uma verdade inventada. Foi essa mulher culpada do nosso encontro. Hoje você já não está aqui. Arrumou um emprego e foi embora e eu continuo aqui tentando administrar empresas e penso como andam suas aulas. Já voltou a fazer teatro? Não quero que você sinta a frustração e viver sentindo saudade do que não viveu.
Hoje é domingo e o que me resta é tomar meu vinho e ouvir João Gilberto. Saber que a saudade é o que me resta. Não sei se irei te ver novamente. Quando vem sentir essa paulicéia poética desvairada novamente? Não, não sei quanto tempo me resta mas espero ainda caminhar pertinho de você nesta selva de pedra. Eu adoro ficar pertinho de você, mesmo que nunca tenha te dito. Poxa, aqui está tão frio agora. Meus pés estão gelados. Acho que vou fazer um chá. Me acompanha?
Bem... algumas coisas mudaram. Meu apartamento agora é pequeno. Acabei de me mudar novamente. Vivo me mudando sem motivo. Ulisses está bem. Você sabe que esse cachorro é um dos poucos que me entendem.
No mais eu estou bem, querida. Não se preocupe. Minha sinusite continua. Fica difícil eu ficar bem fumando tanto. Os dias correm naturalmente, muito trabalho e pouco tempo para ler e escrever. Há dias que estou tão perturbado que me torno o mais irresponsável dos seres. Passo dia com a minha vodka lendo Caio e Clarice. Tudo bem, eu sei que você vai dizer que dói lê-los mas descobri que eles são minhas melhores companhias já que você não está mais aqui.
Esses dias ouvi o Mundo é um Moinho de Cartola. Lembro bastante de você quando ouço essa música.Aí vai um pedacinho pra você:

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és


A vida segue, senhorita. O que sempre me pergunto é: quando é mesmo que vamos tomar aquele cafezinho com licor de chocolate juntos novamente?
Espero que esteja feliz.
Com amor e saudade devoradora, ...me.

E. Alvarez

11 comentários:

israel disse...

belo texto ainda por cima escutando sampa.. perfeito!!

desculpe a invasão

parabens moça!!

Sandrinha disse...

E sabe... café com licor de chocolate é gostoso. Eu tenho rinite. E não gosto de pensar no que não vivi.

Também prefiro verdades inventadas.

Beijos e se cuida.

Alice disse...

Uma carta falando de saudade e uma vida que não será vivida. Essas sensações condensadas trazem mais saudade do que viver uma realidade não inventada. Tenho minhas verdades e em alguns dos seus textos, elas surgem.
Nice text.
Keep on feeling it and we'll write down our realities.

Clarissa Marinho disse...

q bonito!q a vida seja generosa em encontros,entao! =D

Sunshine disse...

ótimo texto!
vc passa uma serenidade com
as q as coisas q escreve.
bjoss
=**

Márcia Leite disse...

Urbano, com cheiro de saudade e gosto de vinho.

=*
=)

Dyego Saraiva disse...

Hoje em dia todo mundo tem um buraco enorme, parece. Sempre falta algo, não é? Tu lê Clarisse é? eu parei com ela.

Abraço.

Limbonauta disse...

Ulisses, além de grandes aventuras, proporciona uma irritação que parece não surtir efeito em vc. Além de cão, seu nome por si só ja significa irritado.

Quanto à Caio e Clarice, essa odisséia de cês que cê se sente... calma?

Melancolia, Eve. Irritação e tristeza, nunca!

Positividades contagiantes pra você.

henrique rock disse...

você alem de ter um bom gosto musical e literario, escreve muito bem parabéns!!!!!

Anônimo disse...

Que declaração de amor mais bem resolvida. Apesar da saudade com gosto de café, o cheiro do vinho ainda vive a esperança de outros encontros. Adorei.
Camilla Tebet
www.essepapo.nafoto.net

Thais Souza disse...

Este é um dos meus favoritos!
É aquele sentimento de nostalgia gostosa. Alivio em meio às palavras ternas e quentes (com gostinho de café com licor de chocolate). Sentindo a brisa leve da Augusta... ;)
Este texto é muito além da leitura, é um "ser", um viver o momento. =)
S