terça-feira, 28 de junho de 2011

Helena, ascendência em câncer



(Parque Trianon, SP. - Adaptação de uma foto de Emmanuel C.A. Mourad)


...............Seca. Assim parecia ser Helena. Não se sabia ao certo. Acordava todo dia às 6hrs da manhã e seguia seus rituais. Ligava o som da sala. Sempre a mesma música. Sempre a mesma ópera. Ouvindo Turandot, Helena engolia uma fatia de pão integral com aquele queijo sem gosto e um copo de suco de laranja. Café não tomava. Dizia que fazia mal à saúde.
...............Helena era meio neurótica. Precisava de uma ordem para que a vida seguisse. Livros arrumados. Filmes distribuídos em ordem alfabética. Talheres brilhantes, guardados de acordo com o tamanho. Era virginiana. Gostava de bolo de fubá.
...............Tinha 38 anos. Solteira, sem filho. Era silenciosa. Não gostava muito de ficar perto das pessoas. Não tinha paciência suficiente. Amigos? O único havia ido morar em Barcelona. Casara no verão de 2009 com uma gringa. Helena morava sozinha. Tinha um gato.
...............Helena era arquiteta. Tinha seu escritório há 15 anos no centro de São Paulo, perto da Praça da República. Chegava lá todos os dias às 9hrs e saía às 16hrs. Gostava de usar o metrô. Conhecia a linha 3 como ninguém. Gostava de dar informações sobre os caminhos, sobre as linhas coloridas que cruzavam a cidade de São Paulo. Gostava de observar as pessoas. Sempre ouvia Johnny Cash no seu IPod.
...............Ninguém nunca ouviu falar muito de Helena. Ela não falava de si. Era trancada em seu mundo. Gostava de ficar em casa no fim de semana. Ninguém sabia, mas ela adorava uísque e conhaque; eram seus companheiros. Helena tinha dia até para sair da ordem. Era assim todo sábado. Cozinhava, bebia, cantava as músicas do Jonny Cash. Sabia todas de cor. ♫ I don't intend to do nothin' for nobody, no time… ♫ Depois, caia no sono e acordava no domingo quase às 3hrs da tarde. Ficava na cama até o começo da noite. Não gostava de domingos. Tirava o telefone do gancho.
...............A verdade é que Helena estava entediada naquela primavera de 2010. Vivia entre uma linha tênue de ordem e de caos. Era virginiana, mas seu ascendente em câncer começou a se manifestar naquele mês de outubro. A desordem e a vontade de largar-se por aí gritavam. A Lua havia entrado em aquário.
...............Quinta-feira à noite, quando Helena ia pra sua aula yoga, algo a fez sair da rotina. Decidiu não ir à aula, foi ao cinema. Nem gostava muito de filmes. Ficava entediada quase sempre. Foi num cinema na Rua da Consolação. Era uma semana dedicada aos filmes suecos. Tomou café.
...............Cinema já escuro. Sentou em uma das duas mesinhas do bar que havia no cinema. Percebeu logo que havia alguém na mesa ao lado. Não dava pra ver direito. O filme começou. Helena prestava atenção nos diálogos. Tentava não se entediar. Às vezes olhava de lado. Era curiosa.
...............O filme terminou e Helena seguiu meio inquieta para a Rua Haddock Lobo. Sentou no primeiro bar que viu. Não percebeu que o cara que estava ao seu lado no cinema havia a seguido. Desprovido de timidez, logo sentou na mesa que ela estava. Surpresa, tímida e afoita do lado de dentro, Helena tentou quebrar o gelo com um sorriso e com um “- sim, pode sentar”. Nada daquilo parecia real. Nada estava na ordem. Culpa da Lua.
...............A noite seguiu. Helena e o homem do cinema atravessaram a noite conversando. Tão quanto ela, ele só queria companhia pra um copo de uísque, palavras. Nada mais, nada menos. Helena contou histórias do tempo que fazia faculdade, e por mais desinteressantes que fossem, o homem do cinema não queria parar de ouvir.
...............Não ficaram bêbados, mas altos o suficiente para falarem um pouco um do outro. Às vezes sorriam, às vezes ficavam calados, às vezes Helena pedia ao garçom pra colocar Jonny Cash, às vezes ela lembrava do seu gato. Ele era mais calado. Talvez libriano, talvez de capricórnio, ou pra completar a confusão, poderia ser regido pela Lua.
...............A verdade é que nada disso importava. Eles estavam ali pelas palavras, pelo uísque. Ela soube pouco dele. Eram quatro da manhã. Noite findou, o uísque acabou, palavras secaram. Helena tinha que ir. Tinha que acordar às 6hrs, pegar a linha vermelha, ouvir Jonny Cash, alimentar o gato.
...............Mantiveram contato, afinal o santo de um havia batido com o do outro. Conversavam fim de noite pela internet, pouco usavam o telefone. Às vezes passavam semanas sem se falar. Ele era estranho, sumia. Já ela, tinha a Lua em escorpião. Ficaram alguns meses sem se ver, mas um dia resolveram se encontrar. Já era verão. A Lua estava convexa, minguante, disseminada em virgem.
...............Tinha que ser rápido. Helena não gostava de ficar na rua até tarde depois do trabalho. Ele tinha que voltar pra casa. Tinha esposa, tinha dois filhos. Marcaram no Parque Trianon. Melhor lugar para se fugir do calor do mês de janeiro.
...............Helena sempre ficava nervosa quando pensava na possibilidade de vê-lo. “Tremia como a antena de um inseto irritadiço” por dentro, mas era a mesma pessoa de aparência seca por fora. Talvez ele nem notasse, mas se sim, do que isso adiantaria?
...............Encontraram-se às 16:30hrs no parque e mais uma vez conversaram. As conversas banais de sempre. Riam, sentiam prazer em estarem juntos. Às vezes o silêncio vinha. Ficavam sem graça. Helena queria dizer coisas que sentia. Ter lua em escorpião e ascendência em câncer complicava a vida dela. Ter o sol em virgem parecia não adiantar quando estava ao lado dele. E qual era o sol dele? Ela nunca soube. O que importava é que ele tinha um muro ao redor de si. Era isso que Helena sabia.
...............Mais uma tarde passou, a noite chegou, mais um encontro, mais silêncios. Não se sabe de fato o que aconteceu naquele fim de tarde além das conversas. Helena nunca contou a ninguém. Talvez tivessem deitado no colo um do outro, talvez tivessem se beijado, talvez tivessem apenas conversado as bobagens que adoravam conversar. O que se sabe é que chegaram em casa na hora de sempre.
...............O fato é que é que nada disso importa. O que importa é que depois desse dia não se encontraram mais. Falam-se esporadicamente. Parecem acompanhar naturalmente as fases da Lua.
...............A vida de Helena segue. Acorda às 6hrs da manhã, pega a linha 3, ouve Jonny Cash, faz aula de Yoga as quintas-feiras, alimenta seu gato. O problema é que Helena tem ascendência em câncer.


E. Alvarez

12 comentários:

Mayara Bastos disse...

Tenho que confessar que me identifiquei muito com a Helena, mesmo eu sendo de Sagitário. rsrsrs. Assim como ela, também gosto de usar o Metrô e conheço bem a linha 3. rsrsrs. ;)

Alex disse...

Eu faria um curta com esse conto. Adorei!

Vanga disse...

muito bom! esse negocio de signos e misticismo sempre é muito louco,mas tb fazem parte da vida principalmente p/ algumas pessoas. :)

Anna Oliveira disse...

Very Good............. arrasou no " tremia como as antenas de um inseto irritadiço"... melhor que "vara verde".. hehehe... Amei. =P

Magnólia Ramos disse...

Texto interessantissimo!
Confesso, que percebi o quanto eu sou otimista quando idealizei um final muito romatico e feliz para e Helena, mas o final que o texto apresentou foi genial. Traz dúdiva, traz uma construção individual... E ao mesmo tempo realista. A vida de Helena seguiu, é isso que importa!

Parabéns pelo texto!
Seguir-te-ei. =)

Thais Souza disse...

Acho um barato essa personalidade de Helena.
Cheia de pensamentos, reflete apenas na superficie o que quer mostrar, ou melhor seria, o que não deseja mostrar.
Essa vida planejada onde o misticismo tem grande espaço, é mais um "filme" gostoso de assistir nas noites de sexta. ;)
Adorei o texto!

Papel disse...

Onde se encontram as mãos de Helena? Que cor tinham seus lábios Helena? Que brilhos refletiam a caminho de casa? Quem sons te envolveriam na doçura do teu canto? Te construo nos diversos pensamentos e devaneios, Helena

Papel disse...

Adorei seu conto. Bjsss

Maxwell Soares disse...

Lindo. Parabéns...

V. Linné disse...

Olá Colega - de escrita e de profissão.

Obrigado pelo seu comentário ao texto meu, embora você não soubesse que era meu. :p

Estou falando do texto publicado pela Cíntia (você a conhece? Poderia fazer o fazer de pedir para que ela o retire ou credite o mais breve possível?)...

http://cintiadekassia.blogspot.com/2011/09/os-dias-estao-tao-corridos-que-quase.html

É uma cópia com ligeiras modificações de gênero de um texto meu:

http://anjomaldito.blogspot.com/2011/09/de-porcelana.html

De qualquer forma, só passei mesmo para agradecer o comentário.

Valeu.

walter cavalcanti disse...

Fiquei curioso pra saber o que aconteceu no último fim de tarde. Ótimo texto, Eveline!

Marlos disse...

Fantástico.