domingo, 12 de abril de 2009

Pedro e o Domingo de Páscoa

Páscoa é sempre tempo de confraternização e tempo de estar perto de quem se ama. Assim diz a regra. Seria tudo tão fácil e mais feliz se fosse assim. Hoje aqui nesse meu domingo de páscoa me lembrei de alguém, o Pedro. Sempre lembro dele. Houve uma páscoa que ele me ligou para contar algo que é difícil de esquecer. Umas daquelas histórias que a gente só conta quando se está bêbado.
Sempre animado com as festividades de páscoa, Pedro estava sempre disposto a juntar os amigos ou estar com a família. Todo ano a mesma coisa, existia a necessidade de estar com as pessoas para se sentir feliz. Não precisava ir ao psicólogo para saber disso. Já basta o tempo de terapia que ele havia feito. Já tinha quase trinta anos e facilmente percebia as coisas dentro de si. Pedro era daqueles que acreditava em amor e amizade ainda. Aqueles caras que tem uma visão romântica da vida, segundo alguns, um quase idiota nos dias atuais. Acreditava em tudo e todos e também achava que todos estariam perto quando ele mais precisasse.
Esse lado de Pedro era mais aflorado nas épocas das festividades. E era assim na páscoa. Vivia comprando presentes, ovos de páscoa para os amigos, escrevendo cartinhas e ligando para todos com aquela mesma frase: “Um feliz domingo de Páscoa para você e toda sua família!” Pedro pouco podia perceber que ele era quase único nos últimos tempos. Seu mundo interior de sentimentos era completamente distorcido da realidade. Poor Guy! Parece que quase trintas anos, completados em março de 2000, não eram capazes de mostrar o lado ruim, ou melhor, o lado desatento das pessoas. Não que ele não tivesse um lado ruim. Sim ele o tinha. Ele era humano também e provavelmente já tinha sido desatento.
Era a páscoa de 2001. Ele me ligou para contar como tinha sido a semana santa dele. Pedro estava sozinho em casa. Morava sozinho, solteirão, sem filhos e de futuro indefinido. Não, não era gay. Gostava mesmo de mulher, mas nunca parava com nenhuma. Dizia que tinha problemas. O problema do desencontro com o outro que às vezes se tem na vida. Aquela velha história que sabemos de trás pra frente; pessoas certas na hora errada. Eu acabo me perguntando, se era certa porque chegou na hora errada? Ai ai, isso aqui pode virar uma tese. Mas voltemos a Pedro. Dizia-lhes que Pedro estava sozinho em casa. Eu preciso terminar de escrever isso antes que eu fique enjoado neste fim de tarde. Afinal hoje é páscoa e quero aproveitar o silêncio deixado pelos meu filhos para poder contar essa historinha dramática para vocês.
De novo, Pedro estava sozinho em casa, tinha tido uma semana difícil. Depois de muito tempo havia percebido que a vida era mais dura do que ele imaginava e que a solidão existia mesmo estando rodeado de pessoas. Que as pessoas que pareciam mais próximas a ele eram capazes de ser extremamente desatentas. Que o seu sentir de costume o deixava fraco e dependente das outras pessoas. Isso se deu, essa descoberta quase científica pra ele, a partir de um acúmulo de sentimentos que estava guardando dentro de si. Impressões trazidas pelo cotidiano e na relação com as pessoas. Amores perdidos, sentimentos extravagantes, peito descoberto, sexo disfarçado de amor, olhos vermelhos, noites de festas solitárias, drogas em fim de festa, sorrisos pré-fabricados e falsas presenças. Pedro me contou que acordara diferente aquela manhã. Como disse, era páscoa. Algo tinha mudado dentro dele. Não sabia explicar . Tomou o café da manhã de costume e teve logo vontade de beber e fumar. Pegou um dos últimos vinhos da adega, bebeu tudo que pôde e fumou. Fumou tanto, chorou tanto que sentiu seu corpo pesado. Na verdade ele não sabia dizer se era a alma ou o corpo que pesava. Ligou para a mãe dele tomado de desespero dizendo que queria embora dali e que a vida dele estava uma bagunça. E eu me pergunto o que era “ir embora dali”. Ir embora de si mesmo??? Porque para mim era isso que ele queria, fugir, correr desesperadamente de si próprio. Ele não conseguia ver que não existia saída? Não. Ele passou a manhã toda chorando deitado no corredor do seu apartamento. Cinzas de cigarro espalhadas e roupa manchada de vinho seco. Depois de algumas horas e da cara inchada, decidiu fazer a social consigo mesmo. Vestiu a sua melhor roupa. Colocou umas gotas de seu único perfume francês e foi almoçar sozinho no Shopping Center mais próximo. Comeu camarão , tomou café e leu “O dia que Júpiter encontrou Saturno” do Caio Fernando Abreu. Achou tão bonito e até sorriu quando leu uma parte que dizia:


-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.


Eu também me emocionei quando ele leu para mim no telefone. Quase chorei na verdade. Pois é , Pedro ficou ali por horas naquele café de Shopping Center. Olhando as pessoas que entravam e saim. Algumas riam, falavam alto ou liam revista de fofoca. Não gostava muito, mas era a única opção naquele domingo de páscoa. Pensou em tanta coisa, percebeu como sua vida era incomum e como estava bagunçada. Lembrava também naquela tarde de uma fala de um amigo que parecia rodear seus pensamentos por horas: “ Não precisa dizer sempre o que pensa e o que sente para os outros. Não percebe que as pessoas não gostam de algumas verdades?” Coitado de Pedro, aquilo soava estranho para o seu mundinho. Gente, tudo que eu queria era que alguém desse um chá de semancol para o meu amigo, porque me faltou coragem. A verdade dói. Às vezes dilacera.
Pedro saiu do café, olhou algumas vitrines e logo foi pra casa. Chorou mais e mais. Sentiu-se perdido e sozinho.
Antes que me perguntem como essa historinha boba e cansativa termina, digo-lhes logo que hoje, depois de oito anos, Pedro é o mesmo. A essência dele é a mesma. A diferença é que os anos de verdade o trouxeram força. É verdade. É mais forte e menos romântico. Hoje eu aqui , como disse, acabei lembrando dele. Decidi ligar e desejar-lhe uma Feliz Páscoa e ele bem animado cortou rapidamente a conversa. Disse-me que estava com algumas amigas em casa, quase bêbado, tomando muita cerveja e assistindo ao jogo do flamengo. Eu nem sabia que ele gostava de futebol.

E. Alvarez

4 comentários:

Namastê! disse...

Esse texto é teu?

Eveline disse...

SIM!!! Pq???? =)))

Me disse...

Cara... Eu sou uma "Pedro"... De março... sentimental...que descobriu a duras penas que a verdade doi, dilascera... mas fortalece! Texto lindo Eveline!

Zélia disse...

12 de abril é meu aniversário... :D