quarta-feira, 8 de abril de 2009

Augusta

E lá vem ela com aquele charme sutil novamente. Mal sabe o que me causa, coitada! Levo dias, semanas e às vezes meses para reencontrá-la e ela sempre me causa algo. Aquela mistura de sentimentos que nem eu consigo explicar. Vem tudo de uma vez. Ela nem se importa se estou preparada ou não. Quer me engolir. Meu corpo a sente de uma tal maneira que só em pensar me excito.
Da última vez que estivemos juntas eu mal consegui dormir de tanta excitação. Ela com aquele brilho incomum, principalmente à noite quando ela aflora, me deixa felizmente perturbada. Por mais que eu tivesse cansada, de uma forma ou de outra , ela só queria me levar aos jardins dela com todo aquele exalante charme.
Antes de conhecê-la, já haviam me dito da energia que ela tinha. Bastava passar pertinho dela que já dava pra sentir. Eu que sou fraca, não resisti, me joguei nos braços dela sem muito pensar. Não me preocupei com os estereótipos ou com a minha orientação de costume. Eu queria mesmo era me desorientar.
Disseram-me que houve uma época que ela vivia rodeada de prostitutas. Eu não me importei. Só queria tocá-la e deixar que ela me contaminasse toda com aquela sensualidade da qual não sou acostumada a ter ou encontrar em qualquer rua da cidade onde moro. Alguns dizem que ela tem um glamour sutil de passarela. Eu não concordo, creio que o que a energia que a rodeia combina mais com um disco antigo da Elis Regina ou com umas das canções mais doloridas da Angêla Rô Rô. Mas também sinto que há dias que ela está mais para sentir as batidas das baladas paulistanas do que qualquer outra coisa e eu, que não consigo resitir, a sigo sem nem piscar. Deixo ela me levar.
O que gosto nela é a diversidade que ela me mostra. Quando estou com ela, esqueço de tudo. Ela me leva sem destino à noite. E sei que ela me quer, toda faceira e disposta, das cinco da tarde até a hora que meu corpo e meus sentimentos agüentarem. Amanheço ao lado dela e não existem cobranças. Passar a noite com ela, dividir as vodkas, os cafés, os cigarros, sentar nas mesas dos botecos e falar de poesia é um estado de espírito para nós duas. Ela comigo e eu com ela. Depois tudo fica ali. Eu vou embora na certeza que ela me teve como mais uma ou mais um que vive buscando nela o lado B da vida. Ela agora é só uma lembrança que rodeia as minhas noites solitárias. Lembro dela quando quero sair de mim e acabo me encontrando mais. É isso, a eterna dúvida sempre vem. Nunca sei se me acho ou se me perco com ela ou no meio dela, onde encontro mais prazer. É algo estranho, perco o fôlego quando me deixo abraçar por ela. Ela que me faz deslizar e até dançar. Ela que me embriaga sem me dar chances de parar para pensar no que é certo ou errado. Ela que me leva ao êxtase. Ela que me faz lembrar da boemia, das luzes em neon, das rosas, do choro contido, da risada solta e dos versos sem rima. Sim, é tudo isso que ela me causa. Isso tudo me assusta e me fascina, pois não estou acostumada a esse tipo de relação.
Sim, meus caros, antes que eu me esqueça, o nome dela é Augusta, palavra de origem latina que significa glorificada e majestosa .Dia desses, ainda tomada de sentimentos por uma das noites que passei com ela, li num desses dicionários bobos que tentam explicar a personalidade através do nome, que as Augustas são idealistas generosas mas que vivem tendo crises de identidade e que vez em quando são tomadas por angústias. Angústia com Augusta? Combina? Às vezes. Sei que a ausência dela me angustia (faz meu corpo doer) em certas noites mas a lembrança viva e a possibilidade de um reencontro me consola.
Cheia de saudades e longe dela neste fim de tarde por aqui, digo-lhes que quando forem a São Paulo não deixem de passar por ela. Ela fica pertinho da Paulista, no bairro da Consolação. Já disse Cynthia Freeney uma vez que “A Rua Augusta é o lugar em que o coração mais perfeitamente se arritmiza.”

E. Alvarez

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Bom exercício, E.

Bom feriado.
Continuemos...

VaneideDelmiro disse...

Lindo texto. Valeu a pena esperar por uma nova postagem.
Parabéns!!!

Maíra disse...

passo por ela todos os dias...mas é à noite que consigo senti-la...e como é bom ser vizinha!!