terça-feira, 9 de março de 2010

Mariana e as Formigas

Vocês conhecem Mariana? É aquela menina que mora naquela cidade de interior. Aquela cidade que eu também não gosto, sabem? Na verdade eu nem sei porquê eu não gosto de lá. Tudo tão calmo, não é mesmo? Sim, então, eu estava falando de Mariana. Eu mesmo, nunca consegui entendê-la. Sempre tão estranha e calada. Quando sorri é por motivos que ninguém entende, eu , principalmente. Uma vez, um amigo meu me disse que Mariana é simplesmente aquilo que não consegue ser simples. Eu, como não entendo dessas coisas, não entendi.
Quem conhece Mariana, sabe que ela estranhamente gosta de observar as formigas. Ela sempre fica no quintal de sua casa. De lá, ela consegue ver as formigas mais de perto. Fica sempre curiosa em saber como podem ser tantas e sempre estarem uma atrás da outra, em ritmo acelerado. E pior, o que Mariana não entende também é que as formigas dão uma rápida parada para dizerem coisas umas às outras. Mariana não entende bem, mas de alguma forma chega a ter pena das pequenas criaturinhas que não param o dia inteiro. Tanta correria, não? Eu, que conheço Mariana, nunca entendo o porquê dela gostar de ver aquilo. Para Mariana, é bonito ver as formigas todas tão organizadas. Parece que Mariana fica feliz em saber que tudo está correto, dentro das longas filas que as formigas formam. Uma vez , lembro que, olhando para as formigas, ela me perguntou com uma carinha feliz: “É sempre assim, né?”. Eu, que sou curto e grosso, disse apenas que era. Ela não perguntou mais nada. Não é insistente.
À noite, quando o quintal fica escuro e as formigas somem, ela sempre tem vontade de chorar. Mariana nunca sabe explicar isso. Acho que ela é meio desajustada, sabe? Mariana não sabe explicar quase nada, mas ela sabe dançar e desenhar também. Ela dança como um vaga-lume tímido dentro de um pote melado de noite. Pote melado de noite? De onde tirei isso, meu Deus ?!! Ah, ela também vive com um caderninho na mão. Acho que é para se abanar do calor, não? Afinal, essa cidade é muito quente.
A mãe de Mariana não a entende. Acha que foi algum problema durante sua gravidez. Um dia ela até me perguntou se ela precisava de psicólogo. Eu tive pena da mãe e menti dizendo que não. Na verdade eu, que sou normal, sei que aquela menina não tem jeito mesmo. É troncha.
Mariana sempre é a primeira da fila em sua sala de aula. O que ninguém entende é que ela nunca fala nada. Para que ficar na frente e não perguntar nada a professora? Isso é coisa de menina burra. O que sei é que na hora do intervalo, Mariana sempre, sempre senta no mesmo lugar; embaixo de uma árvore que tem uma casa em cima. É uma casinha bem tímida, mas que já está quase toda corroída pelos cupins. Os alunos não brincam mais lá. Embaixo daquela árvore Mariana, sozinha, consegue se sentir bem melhor. São sempre vinte minutos de silêncio e também a hora que ela mais gosta na escola. Mariana algumas vezes sente vontade de subir na árvore e entrar na casa, mas sente medo e decide começar a procurar as filas de formigas no meio da grama.
Mariana tem rituais. Toma chá de camomila toda noite. Não gosta do gosto, mas sempre diz que se sente melhor. Eu, como não entendo nada de chás, não sei como ela pode tomar esse chazinho sem graça.
Mariana está terminando o ensino médio. Agora, já tem que pensar o que vai ser. Ela me disse que não sabe o porquê das pessoas quererem ir para uma faculdade. Eu, que sei o que é o correto a se fazer, digo que tem que ser assim mesmo e que a vida é assim. Ela sempre se contenta com a primeira resposta que ouve. Tadinha, não? Tenho pena.
Eu não sei bem o que Mariana vai fazer quando terminar o ensino médio. Eu não entendo nada nela. Eu nem sei o porquê de eu estar aqui falando sobre essa menina sem graça e com cara e jeito de gente estrangeira. Nada pior que ser um estrangeiro em terra desconhecida, não é mesmo?
Eu já estou quase perdendo a paciência de ouvir essas baboseiras de Mariana. Demora a abrir a boca mas sempre, sempre fala ou pergunta besteiras. O estranho é, mesmo que eu me aborreça com os comportamentos meio bizarros que essa menina tem, acho realmente bobo e engraçado quando ela diz que, quando ela realmente crescer de verdade, ela vai querer escrever sobre a vida das formigas.


E. Alvarez

13 comentários:

AmandaBraga disse...

Ah, Amore, Mariana é, na verdade, aquilo que há de mais simples. Desinteressante mesmo é não ver poesia na 'pequena'. :)

Ric disse...

Ser simples, não é simples de entender.

Thais Souza disse...

Eba! Você voltou! ^^

Thais Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Igor Von Richthofen disse...

A simplicidade tocante e inocente que os dias a medida que vão passando tentam nos tirar. Gostei muito e lembrei de quando eu observava as formigs mas eu imaginava elas como as pessoas nas ruas, indiferentes a tudo e sempre apressadas.

Francielly disse...

Mariana me trouxe a ideia de Macabéa. O silêncio, a solidão e a ingenuidade. Doce!

Thais Souza disse...

Mariana... por que será que sua simplicidade, é tão complexa para as pessoas?
Se contenta com a primeira resposta? É simples, não precisa provar aos outros o que é. Simplismente é. É o que é, e adora formigas!
Talvez as pessoas sejam simples demais para entender Mariana. Pobre das pessoas que não tem os olhos abertos para a simplicidade da vida...

(Ouww, profundo não?!! rsrs)

Adorei Mariana Eve!! Parabéns!

Kiara Guedes disse...

fui em seu outro blog mas na consegui deixar recado lá... snif...snif, mas dai que foi bom, encontrei esse aqui tbm! =)

A propósito, o comnetraio lá seria:

Nada como o silêncio pra dizer tudo e extirpar as dúvidas!

Abraços agora, volto depois, viu. =)

Juan Moravagine Carneiro disse...

Fico feliz que você tenha voltado...Em relação a Mariana...ela vai ter muito trabalho, afinal existe organização mais complexa que a das formigas?

orwell disse...

"O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros" C L... Miss u!
hugs

Letícia disse...

Não consigo comentar no café. Deixo aqui o meu "Boa viagem". =)

jefhcardoso disse...

Mariana que está certa, escrever sobre formigas que tanto tempo dedicou ao observa las.
Desde as margens do Rio do Carmo saio a convidar meus amigos do mundo, para que vejam a poesia que falo, o conto que conto e a crônica que narro. Você não conhece o Rio do Carmo? Não lhe culpo de nada. É tão pequenino o meu lugar. Mas ainda assim eu falo, pois é mundo, e quando se é mundo nunca falta o que falar.

Abraço do Jefhcardoso e lhe espero no http://jefhcardoso.blogspot.com.

Thais Souza disse...

Há uma certa relação entre Helena e Mariana?? Me pareceu um tanto familiar! ^^