domingo, 4 de julho de 2010

Desenho Cor de Vinho


(Foto: Body language by Jellymel)


Helena é uma colega minha de faculdade. Quase sempre a vejo nos corredores. Sempre sozinha. Sempre ouvindo música. Ela estuda comigo há alguns anos, mas nunca me aproximei dela de verdade. Fizemos uns trabalhos juntos, mas a verdade é que ela nunca deixa ninguém se aproximar. Eu sempre me pergunto que cor tem o mundo dela. Mal sorri, mal fala em sala de aula. Tudo que ela mostra é aquele arrebatador par de olhos castanhos. Olhos quase claros, olhos quase escuros.
Eu sou curioso e na verdade queria saber mais sobre ela. Um dia andando por esse mundo virtual achei seu blog. Tudo tão cinza por lá, tudo tão cor de dúvida. Li vários de seus textos e percebi que ela tem predileção por cartas. Eram tantas cartas. Seriam cartas reais? Seriam cartas que ela já teria mandado? Ou apenas cartas pra ninguém? Encantei-me por Helena e por suas cartas. Tão quanto ela, vivo perdido no meio das palavras. Eu também escrevo, mas acho que jamais terei o talento que Helena tem com as palavras. Toda noite leio uma carta dela lá no blog. Tenho percebido que as últimas são sempre para mesma pessoa. Não tem nome. São apenas endereçadas a “V”.
A última carta é recente, com data deste mês ainda, deste último fim de semana na verdade. Comecei a ler e confesso que senti tanta coisa passar pela minha mente e corpo que tudo que eu queria era ligar para ela e comentar tal carta. Não tive coragem. Quem sou eu perto de alguém que escreve tão bem? Fiquei horas e horas com a carta na cabeça. Carta curta que dizia assim:

Florianópolis, 04 de Julho de 2010.
V,
O ventilador parece espalhar pelo quarto escuro o cheiro do nosso suor. Deito. O céu do meu quarto lembra o contorcer dos nossos corpos na macia cama branca. Meus olhos perturbados desenham imagens distorcidas do teu olhar lento e silencioso. Tento juntar esses ícones na minha mente. Imagens e mais imagens me invadem. Somos ícones puros que fomos invadidos violentamente por índices sensuais. Minha mente já não entende toda essa semiótica de cores e formas que se quebram na simbologia da saudade. Desenho o teu corpo quente e acolhedor sobre o meu com traços desencontrados. Sentada no corredor vejo costas cor de sépia em minha cama. São minhas. São tuas. Fica embaçado, mas ainda vejo, através de nuvens cinzas, o teu dedo deslizar neste ainda desfocado desenho. Lembro do vinho tinto, seco e de nome sutilmente endiabrado que esquentava mais ainda cada contorno dos nossos corpos. Passo o dedo na garrafa, procuro ainda o resto do vinho. Fecho os olhos e começo a criar um desenho tinto. Manchas. Teu desenho, meu desenho, nosso desenho. Desenho com bordas amassadas que nele tudo ainda se confunde. Que traços manchados são estes que aparecem? Quais são teus? Quais são meus? O que é nosso neste desenho cor de vinho?
Já é noite. Já está tarde. Volta. Vem desenhar comigo. Ainda há gotas naquela garrafa.
Helena


Depois de ler esta carta ainda fiquei ainda mais curioso em saber mais e mais sobre Helena. Quem seria V? Onde seria a praia das incertezas? Onde é e se existe eu não sei, mas sei apenas que, tão quanto Helena, eu vivo nesse eterno jogo com as palavras. Vivo das incertezas, das imagens, de lugares que fazem falta, de lugares que nem sei se existem. De sentimentos que passeiam através do tempo e da História.
Estou cansado agora. Já é tarde. Amanhã na aula, tomo coragem e falo com Helena.

E. Alvarez

12 comentários:

Fabrícia disse...

^* Silêncio meu *
Não vou revelar e partilhar com vocês a sensação que esses textos me provocam. É muito íntimo, sabe?
Beijo, Eveline.

Eveline disse...

Obrigada pela gentileza e pelas palavras de sempre, queridas leitora Fabrícia. Volte sempre!

Letícia disse...

Teus personagens ou são bêbados, ou tomam café demais. Todo mundo que escreve carrega uma temática. Esta é a tua: amor etílico. =)

Muito romântico mesmo. Parece até que você leu Janet Dailey.

E bota pra escrever. Essa coisa de falta de tempo não existe.

Bjo.

Vanga disse...

[...]"existem escritores que ficam em seus escritorios e aqueles que tentam sentir na pele sobre o que escrevem."[...] Parafraseando Caio Fernadno Abreu... :) vc se enquadra na segunda categoria... daqueles que sentem na pele para poder se entregar a escrita? Bem acho que sei a resposta! Mas falando do texto ficou muito melhor agora depois que vc acrescentou a parte sobre a questão relacionada a carta, deu maior consistencia. Por fim é bom ressaltar que as entrelinhas falam tudo! gostei dos nomes das personagens! :)

Letícia disse...

Li.

E vi o comentário acima. Não gosto de comparar ninguém a ninguém. O mundo é vasto demais para comparações. E eu tb gostei do novo formato. Tem mais "sustância", como diria o pessoal daqui. E você arrumou um belo nome para o alter ego que também pode ser outra pessoa. Tb sou como esta Helena aí. Vivo na praia da incertezas, esquina com almas avariadas.

Vou divulgar.

Tô escolhendo coisas que gosto de ler em blogs pra divulgar no afeto. Eu tô publicando outras pessoas que escrevem tb. Uma mão lava a outra.

Bjo.

E continue a remar.

Mayara Bastos disse...

Eveline, por incrível que pareça, me identifiquei com a Helena, nesta parte de incertezas que vivi ultimamente.

AMEI este post, flor. Parabéns!

Beijos! ;)

Rosangela disse...

Belo texto, Eve! Gostei muito de revisitar seu blog. Fazia um tempo que eu não vinha aqui. Ando meio distante de quase tudo.

Valeu!! Bjo!

Eveline disse...

Coisas mais lindas esse comentários aqui! Obrigada, pessoas. =)

Thais Souza disse...

Concordo com a Leticia, para ótimos escritores como você, falta de tempo não existe! O texto é realmente incrível, com uma sensibilidade intensa! A cada novo post é uma explosão de sentires!! Como diz Lindu: "Continue teimando"...

Parabéns, Eveee!! ;)

(Aee pessoal, não vamos deixar de divulgar isso aqui)

Igor Von Richthofen disse...

Amor eitilico é o nume de umas das músicas da minha banda hehehe mas isso não vem ao caso...eu to meio abalado com o texto, a coragem pra falar e achar que as incertezas vão embora quando na verdade so vão aparecer novas incetezas, a solidão partilhada num silencioso olhar para trejeitos o jeito de agir consigo mesmo e com os outros e as palavras escritas numa entrega passional única fazem seus textos mais Helenas do que se possa imaginar. Sensibilidade única Eveline! gostei mesmo

Eveline disse...

Igor, esse seu cometário já é um novo texto. Obrigada por sentir! E isso muitas vezes já nos basta!
=)

Pluralidade do meu singular disse...

Maravilha...