sábado, 14 de agosto de 2010

Sonhos em [re] Versos Azuis


Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo? Ou teria sido o contrário? Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não?” (Caio Fernando Abreu em “Por trás da vidraça”)

Às vezes acordo com a sensação de que sonhei que o teu corpo estava perto do meu. Acordo e vejo que nem eu estou no lugar. Nada está no lugar! Os copos, os pratos, os livros, meus filmes e muito menos as horas que vivo! Corro para o dia começar. [Re] invento-me para me concentrar nas notícias diárias do jornal ou para escrever mais uma petição ou lembrar onde está o carimbo que uso nas procurações. Acabo mesmo é esquecendo de me procurar no meio de tanta burocracia.
A verdade é que não quero abrir a janela do quarto para que a lembrança do teu corpo não saia rapidamente. É verdade que só quero escrever sobre a sua [não] lembrança.
Tomo café e lembro dos filmes que não assistimos. Permeio minhas falsas lembranças com as cenas de Laranja Mecânica que não vimos. Passaríamos horas falando dele, não?
É bom lembrar do que [não] aconteceu. Ou aconteceu e nem percebemos de fato? Foi sonho só meu regado a vinho? Excesso de cafeína? Excesso de Radiohead?
É bom não saber das noites que não seguimos Baco por medo de não sabermos acordar do nosso próprio sonho real. Era um blues ou um jazz que não ouvimos no fim de semana passado que não passou?
Não quero saber o quanto você parece comigo. Não quero saber do que já sei. Não quero me [des]concentrar dessas petições e procurações que tenho que fazer, pensando na gente e no cheiro que a gente [não] deixou um no outro. Já não sei o que aconteceu. Já [não] sei. Aconteceu?
Lembro que não te falei do meu ciúme silencioso quando você escuta a Cat Power. E aqui só me resta ouvir Noel Rosa. Lembro também dos nossos cafés, cigarros e reflexões matinais que não aconteceram naquela manhã de inverno chuvosa na cidade que nunca planejamos ir. [Não] lembro do livro de Kerouac que desfolhamos juntos. E o que seria de nós se soubéssemos que somos, tão quanto ele, loucos pra viver, loucos para falar, loucos para sermos salvos e desejosos de tudo ao mesmo tempo? É um perigo saber de tanta coisa assim. Fiquemos sem saber [?] O melhor é ser livre.
É noite, tenho medo de dormir. Sonhar com acasos ou ter medo de transformá-los em descasos.
Temos medos que gritam e só o inconsciente pode ouvir. Viramos escravos dele e não conseguimos ver os versos através das poucas horas que estamos juntos. Preferimos estar em silêncio. Sem saber o que falar. Sem saber o que sentir. [Não] queremos perceber. Perceber o que timidamente já percebemos? Ah, baby… “We're just two lost souls. Swimming in a fish bowl, Year after year, Running over the same old ground. What have we found? The same old fears...”.
Eu não sei o que está por trás da vidraça que nos amedronta. Não sei se sonhei com aquela estranha caixa de sentires que carregas.
Não sei se sonhei com aqueles versos brancos pintados de azul. Não sei se sonhei em “ser livre daquilo que nos prende”.
Vou dormir agora e [não] quero sonhar com a suave dor que você [não] deixou nos meus lábios nesta noite.
Eu quero [não] acordar deste [re] verso.


E. Alvarez

4 comentários:

Igor Von Richthofen disse...

Dualidades perturbadoras daquelas que te tiram muito mais do que noites de sono hehe gostei Eveline! mais uma boa surpresa pra se ler

Letícia disse...

Lembrar do que não existe. Isto é um exercício de memorização. Como a gente fazia com aquele joguinho da memória nos tempos de infância. Mas agora escrevemos e, no que se escreve, fica um pouco da realidade. Cama de casal não foi inventada em vão. Mas esqueceram o objetivo. E a gente continua lendo Caio F. pra ser se engrena ou se acaba de vez.

Beijo, Eve.

Boa maturidade dizer que sente falta.

Vanga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanga disse...

as lembranças são um foco para a inspiração e pontecializadora da escrita. Sou suspeito para falar, mesmo assim: Otimo texto!