
“Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada…“ Caio Fernando Abreu
Era apenas uma borboleta naquele fim de tarde. Eu sempre gostei de borboletas mas nunca consegui trazê-las para perto de mim. Já tentei agarrá-las algumas vezes mas elas sempre escapam. Tão sensíveis, asas coloridas, mas de expressão chorosa. Naquela tarde eu estava tão tomada pelo senso comum das coisas que eu quase não percebi a presença daquela borboleta de asas roxas pertinho de mim. Quando a percebi fiquei com aquela cara de boba. Cara de quem sempre quer mais. Eu a quis naquele momento. Ela estava tão perto e suas asas eram serenas e parecia não querer se mover. Tive medo de tentar uma aproximação e ela sair voando e me deixar ali, naquele estado, contaminada pelo meio comum, pelo dia-a-dia. Fui me aproximando devagarzinho, assim como faço como as coisas me despertam. As vezes eu até quero me jogar ao desejo.
Bem, o caso é que ela estava ali, pronta pra ser vista, ser apreciada mas talvez nunca tocada. Eu não sabia se eu poderia ir. A hora corria e eu tinha que pegar o ônibus para ir me escravizar e assim pagar as contas do fim mês. Era só isso que sentia. A eterna mistura de sentimentos. Ficar ali apreciando a borboleta ou ir para o que me roubava de mim mesma. Eu queria ficar, já estava quase rendida. Não tinha mais forças, eu precisava estar ali olhando para aquele ser frágil que a cada segundo me transformava, uma simples borboleta de asas roxas. Não hesitei então, dei passos discretos para que ela não percebesse minha presença. Ela parecia imóvel, pousada naquele tronco de árvore que parecia querer engoli-la. Quando cheguei perto, tive medo. Quase sempre tenho medo. Medo do que as aproximações possam me trazer. Tenho medo de me encontrar no outro.
Estava a poucos metros da borboletinha quando decidi parar e acender um cigarro. Sentei num banquinho que havia perto e apenas a olhei, assim como se olha para as coisas mais leves que se pode encontrar no caminho. Não pensei em muita coisa. Pensar as vezes estraga.
Ao observá-la um pouco mais de perto, percebi que uma das suas asas estava levemente rasgada. Ela não era perfeita. Não importava, eu a queria da mesma forma, com a mesma beleza estranha, escura, fúnebre, com aquela cor que me dilacerou naquele fim de tarde.
Eu já havia esquecido do trabalho, certamente seria demita no dia seguinte. Ninguém mais agüentava mais ouvir minhas verdades, opiniões, meus poemas em versos brancos, o meu silêncio. Todos os dias eu esquecia de bater o cartão de ponto. Eu sempre me atrasava porque eu acordava com uma poesia na cabeça.
Levantei do banco, dei mais alguns passos e levantei a minha mão para assim começar a tentativa de um alcance. Estava tomada por um impulso desconhecido de ir. Hesitei. Pensei o porquê de eu querer ir e que sentido tinha aquilo tudo. Eu já não sabia. Era uma bagunça mental enorme e vários sentimentos tentando ser embrulhados. Neste momento via as asas da borboleta se mexendo lentamente. Era como uma piscadela humana. Um sinal. Não agüentei mais. Minha respiração já estava alterada. Eu estava nervosa. Meu corpo dava sinais. Eu nem lembrava mais que eu estava numa rua comum, cheia de carros loucos, aquela fumaça sufocante e esperando um ônibus para ir ao meu desencontro. Queria gritar, queria sair correndo mas ao mesmo tempo eu queria estar ali, eu e a borboleta de asas roxas.
Depois do sinal que ela me deu com suas asas frágeis eu finalmente me aproximei dela. Fui e ela não parecia se importar com a minha presença. Não voou, pelo contrário, batia as asas cada vez mais forte. Parecia que estava feliz e mostrando o que tinha de mais bonito, as asas. Ela não se importou que uma de suas asas estivesse rasgada. Ela parecia feliz e o que senti foi que ela me queria ali. Talvez ela estivesse me chamando para voar junto com ela, para que ela não ficasse ali sozinha. Acho que ela tinha medo de voar também.
Eu fiquei confusa não sabia como responder aquele chamado tão doce. Queria ir, queria voar, queria sentir como aquela borboleta de asas roxas.Queria até mesmo ter asas para que uma delas fosse rasgada. Queria voar sem direção definida. A Olhei , olhei de novo e mais uma vez ela bateu as asinhas. Não fiquei mais. Virei as costas. Não tive coragem de olhar para trás. Talvez ela tenha entendido que ainda estou no meu casulo.
E. Alvarez