quinta-feira, 24 de abril de 2008

Yin Yang *

"Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas."(Pablo Neruda)



Permanecia sentada. Quase imóvel. Demorei a percebê-la. Não sabia se ela gostava do Neruda ou do Bandeira, se ela gostava de azul ou de rosa. Não sei o porquê da minha demora em percebê-la e nem sei se é preciso ter pressa para perceber coisas.
Imaginei se ela era de touro ou de virgem. Se gostava de maçã ou de pêra. Enquanto meu pensamento se perdia olhando para sua nuca desenhada, ela permanecia ali parada, ali quase imóvel.
Ela não falou comigo. Se falase o que teria a me dizer? Imaginei se ela era de Chico ou de Caetano, rubro negra ou fluminense.
Em tudo isso eu pensava enquanto alguém se aproximou dela e pude perceber de longe seu primeiro sorriso. Pensei: Gosta do Almodovar ou do Woody Allen?
A praça estava cheia e ela já não era imóvel e quem a acompanhava já ali não estava. O qua ainda fazia ali? Comeria pipoca ou algodão doce?
Pensei em ir falar com ela e perguntar se ela prefere o céu azul ou cor de crespúsculo.
Levantei peguei uma florzinha rosa do jardim e fui até ela. Ela me recebeu com um sorriso singelo, daqueles que parecem um poema da Florbela Espanca. Ainda não sabia se seria doce ou salgado.
Passamos a tarde juntos, conversamos sobre cores, sabores e da atmosfera daquela praça. Rimos juntos. Senti a presença de borboletas azuis no meu estômago. O céu estava tão amigo que esboçou uma mancha de arco-íris. O dia já estava quase acabando quando alguém se aproximou,a pegou pelas mãos e beijou levemente seus lábios. Neste momento as borboletinhas azuis batiam as asas bem devagarinho e me deixaram com enjôo. Ela se despediu de mim com um sorriso.
Levantei do banco de madeira, comprei um saquinho de pipoca.Doce ou salgada? Não lembro. Fui para casa. Nunca soube o quê se seríamos juntos. Nunca soube se ela era Yin ou Yang.

E. Alvarez

*Escrito ontem no ar e sob algum mar. ( A caminho de São Paulo)

8 comentários:

Anônimo disse...

+ou-

VaneideDelmiro disse...

Lindo texto!

Sandrinha disse...

O problema de não se saber o que seria é o que aflige a alma.

(querendo ou não, por influência do seu texto ou não, acabo de decidir algo dentro de mim)

Tenha uma boa semana.

Se cuida!

Beijos.

Camilla Tebet disse...

Isso é que é F SODA: saber o que seria se fosse, não é? Mas suas palavras foram claras, assim como as borboletas que bateram asas. Mas me toca textos que contam ainda a capacidade de ter borboletas batendo asas dentro de si. Acho que isso nem é figura sabe? Acho que é verdade, são borboletas mesmo.
Na minha opinião querias saber demais em muito pouco tempo, e acabou descobrindo o que nem queria. De qualquer maneira, um belíssimo texto. Finais assim inspiram..... ao yin e ao yang.
Beijos com carinho de borboletas.

Germano V. Xavier disse...

Viagens de viagens, viajar é preciso.

Abraços...

Germano

Ronne disse...

trocar de gênero não é fácil...
pois já escrevi algumas poesias,
tentando ser a mente de uma mulher...

Em fim gostei dessa ousadia,
e da simplicidade do texto,
final triste e bonito.

Iris Helena disse...

Eu adoro essas coisas de "nunca-saber-se-era-isso-ou-aquilo". é tudo!


:***

Narradora disse...

Belo texto.
O tudo do começo, um sem fim de possibilidades... o encontro e a incrível simplicidade de estar próximo... o fim, como um entardecer... o nunca saber e estamos de volta ao tudo.
Bjs.
Ps: Muito bonito o blog, a opção pelo P&B, a escolha das músicas e imagens.