sábado, 28 de agosto de 2010
Branca Agonia
É amarração da linha que não quer se desdobrar em verso.
É reverso que não acontece.
É ausência da alegria do verso colorido.
É massacre que faz do tempo inimigo.
É grito mudo, vontade tímida.
É corpo vestido que quer se rasgar na nudez.
É a busca da rima fracassada.
É o sufoco humano que quer transbordar.
É medo do encontro com o que está atrás do espelho.
É o não sentir em paradoxos.
É o não encontro das antíteses.
É a agonia branca que não se desfaz.
E. Alvarez
sábado, 14 de agosto de 2010
Sonhos em [re] Versos Azuis

“Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo? Ou teria sido o contrário? Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não?” (Caio Fernando Abreu em “Por trás da vidraça”)
Às vezes acordo com a sensação de que sonhei que o teu corpo estava perto do meu. Acordo e vejo que nem eu estou no lugar. Nada está no lugar! Os copos, os pratos, os livros, meus filmes e muito menos as horas que vivo! Corro para o dia começar. [Re] invento-me para me concentrar nas notícias diárias do jornal ou para escrever mais uma petição ou lembrar onde está o carimbo que uso nas procurações. Acabo mesmo é esquecendo de me procurar no meio de tanta burocracia.
A verdade é que não quero abrir a janela do quarto para que a lembrança do teu corpo não saia rapidamente. É verdade que só quero escrever sobre a sua [não] lembrança.
Tomo café e lembro dos filmes que não assistimos. Permeio minhas falsas lembranças com as cenas de Laranja Mecânica que não vimos. Passaríamos horas falando dele, não?
É bom lembrar do que [não] aconteceu. Ou aconteceu e nem percebemos de fato? Foi sonho só meu regado a vinho? Excesso de cafeína? Excesso de Radiohead?
É bom não saber das noites que não seguimos Baco por medo de não sabermos acordar do nosso próprio sonho real. Era um blues ou um jazz que não ouvimos no fim de semana passado que não passou?
Não quero saber o quanto você parece comigo. Não quero saber do que já sei. Não quero me [des]concentrar dessas petições e procurações que tenho que fazer, pensando na gente e no cheiro que a gente [não] deixou um no outro. Já não sei o que aconteceu. Já [não] sei. Aconteceu?
Lembro que não te falei do meu ciúme silencioso quando você escuta a Cat Power. E aqui só me resta ouvir Noel Rosa. Lembro também dos nossos cafés, cigarros e reflexões matinais que não aconteceram naquela manhã de inverno chuvosa na cidade que nunca planejamos ir. [Não] lembro do livro de Kerouac que desfolhamos juntos. E o que seria de nós se soubéssemos que somos, tão quanto ele, loucos pra viver, loucos para falar, loucos para sermos salvos e desejosos de tudo ao mesmo tempo? É um perigo saber de tanta coisa assim. Fiquemos sem saber [?] O melhor é ser livre.
É noite, tenho medo de dormir. Sonhar com acasos ou ter medo de transformá-los em descasos.
Temos medos que gritam e só o inconsciente pode ouvir. Viramos escravos dele e não conseguimos ver os versos através das poucas horas que estamos juntos. Preferimos estar em silêncio. Sem saber o que falar. Sem saber o que sentir. [Não] queremos perceber. Perceber o que timidamente já percebemos? Ah, baby… “We're just two lost souls. Swimming in a fish bowl, Year after year, Running over the same old ground. What have we found? The same old fears...”.
Eu não sei o que está por trás da vidraça que nos amedronta. Não sei se sonhei com aquela estranha caixa de sentires que carregas.
Não sei se sonhei com aqueles versos brancos pintados de azul. Não sei se sonhei em “ser livre daquilo que nos prende”.
Vou dormir agora e [não] quero sonhar com a suave dor que você [não] deixou nos meus lábios nesta noite.
Eu quero [não] acordar deste [re] verso.
E. Alvarez
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Dialogue
- Hummm... when you grow up, honey, your're going to see that life ,indeed, is such a lovely mess.
- But...is it going to hurt?
- A lot.
- So, why should I be alive? Why do we grow up?
- Because life is also a lost piece of poetry, dear.
- Mom!! Great! Can I look for it? For the poetry?
- Yes, sweetheart , but now you're only six years old. Don't worry about that. Go to your toys.
- Ok, Mom. But what's poetry?
- Poetry , honey... is the only thing that save us from bad things when we grow up.
- I think I got it, mom. Poetry is like a pill, right?
- Yes, my little bee.
- Can I go now? Can play in the garden and talk to my flowers there?
- Sure! Have fun.
E. Alvarez
domingo, 4 de julho de 2010
Desenho Cor de Vinho

Helena é uma colega minha de faculdade. Quase sempre a vejo nos corredores. Sempre sozinha. Sempre ouvindo música. Ela estuda comigo há alguns anos, mas nunca me aproximei dela de verdade. Fizemos uns trabalhos juntos, mas a verdade é que ela nunca deixa ninguém se aproximar. Eu sempre me pergunto que cor tem o mundo dela. Mal sorri, mal fala em sala de aula. Tudo que ela mostra é aquele arrebatador par de olhos castanhos. Olhos quase claros, olhos quase escuros.
Eu sou curioso e na verdade queria saber mais sobre ela. Um dia andando por esse mundo virtual achei seu blog. Tudo tão cinza por lá, tudo tão cor de dúvida. Li vários de seus textos e percebi que ela tem predileção por cartas. Eram tantas cartas. Seriam cartas reais? Seriam cartas que ela já teria mandado? Ou apenas cartas pra ninguém? Encantei-me por Helena e por suas cartas. Tão quanto ela, vivo perdido no meio das palavras. Eu também escrevo, mas acho que jamais terei o talento que Helena tem com as palavras. Toda noite leio uma carta dela lá no blog. Tenho percebido que as últimas são sempre para mesma pessoa. Não tem nome. São apenas endereçadas a “V”.
A última carta é recente, com data deste mês ainda, deste último fim de semana na verdade. Comecei a ler e confesso que senti tanta coisa passar pela minha mente e corpo que tudo que eu queria era ligar para ela e comentar tal carta. Não tive coragem. Quem sou eu perto de alguém que escreve tão bem? Fiquei horas e horas com a carta na cabeça. Carta curta que dizia assim:
V,
O ventilador parece espalhar pelo quarto escuro o cheiro do nosso suor. Deito. O céu do meu quarto lembra o contorcer dos nossos corpos na macia cama branca. Meus olhos perturbados desenham imagens distorcidas do teu olhar lento e silencioso. Tento juntar esses ícones na minha mente. Imagens e mais imagens me invadem. Somos ícones puros que fomos invadidos violentamente por índices sensuais. Minha mente já não entende toda essa semiótica de cores e formas que se quebram na simbologia da saudade. Desenho o teu corpo quente e acolhedor sobre o meu com traços desencontrados. Sentada no corredor vejo costas cor de sépia em minha cama. São minhas. São tuas. Fica embaçado, mas ainda vejo, através de nuvens cinzas, o teu dedo deslizar neste ainda desfocado desenho. Lembro do vinho tinto, seco e de nome sutilmente endiabrado que esquentava mais ainda cada contorno dos nossos corpos. Passo o dedo na garrafa, procuro ainda o resto do vinho. Fecho os olhos e começo a criar um desenho tinto. Manchas. Teu desenho, meu desenho, nosso desenho. Desenho com bordas amassadas que nele tudo ainda se confunde. Que traços manchados são estes que aparecem? Quais são teus? Quais são meus? O que é nosso neste desenho cor de vinho?
Já é noite. Já está tarde. Volta. Vem desenhar comigo. Ainda há gotas naquela garrafa.
Helena
Depois de ler esta carta ainda fiquei ainda mais curioso em saber mais e mais sobre Helena. Quem seria V? Onde seria a praia das incertezas? Onde é e se existe eu não sei, mas sei apenas que, tão quanto Helena, eu vivo nesse eterno jogo com as palavras. Vivo das incertezas, das imagens, de lugares que fazem falta, de lugares que nem sei se existem. De sentimentos que passeiam através do tempo e da História.
Estou cansado agora. Já é tarde. Amanhã na aula, tomo coragem e falo com Helena.
E. Alvarez
terça-feira, 9 de março de 2010
Mariana e as Formigas
Vocês conhecem Mariana? É aquela menina que mora naquela cidade de interior. Aquela cidade que eu também não gosto, sabem? Na verdade eu nem sei porquê eu não gosto de lá. Tudo tão calmo, não é mesmo? Sim, então, eu estava falando de Mariana. Eu mesmo, nunca consegui entendê-la. Sempre tão estranha e calada. Quando sorri é por motivos que ninguém entende, eu , principalmente. Uma vez, um amigo meu me disse que Mariana é simplesmente aquilo que não consegue ser simples. Eu, como não entendo dessas coisas, não entendi.
Quem conhece Mariana, sabe que ela estranhamente gosta de observar as formigas. Ela sempre fica no quintal de sua casa. De lá, ela consegue ver as formigas mais de perto. Fica sempre curiosa em saber como podem ser tantas e sempre estarem uma atrás da outra, em ritmo acelerado. E pior, o que Mariana não entende também é que as formigas dão uma rápida parada para dizerem coisas umas às outras. Mariana não entende bem, mas de alguma forma chega a ter pena das pequenas criaturinhas que não param o dia inteiro. Tanta correria, não? Eu, que conheço Mariana, nunca entendo o porquê dela gostar de ver aquilo. Para Mariana, é bonito ver as formigas todas tão organizadas. Parece que Mariana fica feliz em saber que tudo está correto, dentro das longas filas que as formigas formam. Uma vez , lembro que, olhando para as formigas, ela me perguntou com uma carinha feliz: “É sempre assim, né?”. Eu, que sou curto e grosso, disse apenas que era. Ela não perguntou mais nada. Não é insistente.
À noite, quando o quintal fica escuro e as formigas somem, ela sempre tem vontade de chorar. Mariana nunca sabe explicar isso. Acho que ela é meio desajustada, sabe? Mariana não sabe explicar quase nada, mas ela sabe dançar e desenhar também. Ela dança como um vaga-lume tímido dentro de um pote melado de noite. Pote melado de noite? De onde tirei isso, meu Deus ?!! Ah, ela também vive com um caderninho na mão. Acho que é para se abanar do calor, não? Afinal, essa cidade é muito quente.
A mãe de Mariana não a entende. Acha que foi algum problema durante sua gravidez. Um dia ela até me perguntou se ela precisava de psicólogo. Eu tive pena da mãe e menti dizendo que não. Na verdade eu, que sou normal, sei que aquela menina não tem jeito mesmo. É troncha.
Mariana sempre é a primeira da fila em sua sala de aula. O que ninguém entende é que ela nunca fala nada. Para que ficar na frente e não perguntar nada a professora? Isso é coisa de menina burra. O que sei é que na hora do intervalo, Mariana sempre, sempre senta no mesmo lugar; embaixo de uma árvore que tem uma casa em cima. É uma casinha bem tímida, mas que já está quase toda corroída pelos cupins. Os alunos não brincam mais lá. Embaixo daquela árvore Mariana, sozinha, consegue se sentir bem melhor. São sempre vinte minutos de silêncio e também a hora que ela mais gosta na escola. Mariana algumas vezes sente vontade de subir na árvore e entrar na casa, mas sente medo e decide começar a procurar as filas de formigas no meio da grama.
Mariana tem rituais. Toma chá de camomila toda noite. Não gosta do gosto, mas sempre diz que se sente melhor. Eu, como não entendo nada de chás, não sei como ela pode tomar esse chazinho sem graça.
Mariana está terminando o ensino médio. Agora, já tem que pensar o que vai ser. Ela me disse que não sabe o porquê das pessoas quererem ir para uma faculdade. Eu, que sei o que é o correto a se fazer, digo que tem que ser assim mesmo e que a vida é assim. Ela sempre se contenta com a primeira resposta que ouve. Tadinha, não? Tenho pena.
Eu não sei bem o que Mariana vai fazer quando terminar o ensino médio. Eu não entendo nada nela. Eu nem sei o porquê de eu estar aqui falando sobre essa menina sem graça e com cara e jeito de gente estrangeira. Nada pior que ser um estrangeiro em terra desconhecida, não é mesmo?
Eu já estou quase perdendo a paciência de ouvir essas baboseiras de Mariana. Demora a abrir a boca mas sempre, sempre fala ou pergunta besteiras. O estranho é, mesmo que eu me aborreça com os comportamentos meio bizarros que essa menina tem, acho realmente bobo e engraçado quando ela diz que, quando ela realmente crescer de verdade, ela vai querer escrever sobre a vida das formigas.
E. Alvarez
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Parecemos não saber
“O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta, ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta." (Trecho de Persona - Ingmar Bergman)
Algo sem eixo me torce por dentro. Não sei nomear, agora só sei sambar, sentir e musicalizar a sensação de ócio dócil que você me traz.
O vinho seco que despejas nos meus lábios os deixa quase dormentes de prazer. É aquela coisa da tensão amorosa que a gente parece ver só nos filmes. A campainha toca no fim da tarde. Quando você chega eu desligo a TV pois, já não quero mais um filme noir. Você me traz cor. As paredes da minha sala inevitavelmente sentem o teu azul que me transforma num blues feliz e levemente destoado. Olho-te quase sem piscar e em silêncio. Você acende seu cigarro e me pergunta se eu gosto do Ingmar Bergman e de imediato penso que o que eu quero mesmo é te entregar os meus morangos silvestres guardados na geladeira há dias. Assistimos à Persona e nosso mundo se (des) constrói em minutos. Juntos e ainda bobos lembramos e repetimos quase gritando, quase como amáveis idiotas, o trecho: “O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser.” Temos medo mas gargalhamos. Não sabemos o que realmente parecemos. A verdade é que dançando assim você me deixa sem jeito.
Somos assim quando estamos juntos e nada mais importa. É quase sete horas da noite e já estamos quase embriagados de nós mesmos. As palavras são desnecessárias. Comemos chocolate amargo entre os espamos e tomamos café quente depois de sexo latente. O nosso amor é insanamente racional e nosso sexo quase casual. Nosso suor se perde naqueles lençóis quase virginais. Em meio da nossa respiração desenfreada você me acalenta, e ao som do ruído gostoso da minha vitrola velha ouvimos nosso Chico. Logo você sorri me dizendo “lá vem esse cara de novo com essa história de Morena dos olhos d’água para quebrar mais ainda meu peito”. Eu não falo nada, apenas faço de conta que acho isso tudo muito bobo. Faço cara de descaso e deboche porque tenho medo que você venha novamente ou que não venha mais. Na verdade fico literalmente fraca dentro da nossa fortaleza de existência incoerente e quase conseqüente. Você quase desanima e vai mexer nos meus livros. Eu em silêncio permaneço no quarto que ainda nos exala. Você volta. Levanto. Preparo para você aquele ravioli de camarão quase apimentado. Você volta e me pergunta o que somos. Eu troco o silêncio por um fraco sussurro e digo que não somos nada de fato. Você repete o que eu digo três vezes para se convencer que precisa ir embora. Eu quase sorrio ironicamente. Sua ida já anuncia o choro cor de ferrugem. Você não quer ir. Eu não quero que você vá. Chico já não canta. O disco arranha. O inútil sonho de ser do Bergman acaba. Começamos a sentir o que realmente é. Você pede desculpas. Eu peço desculpas. As palavras faltam. O vinho acaba. O ravioli esfria. O chocolate derretido parece congelar. Você apaga o cigarro. Olho-te. Já é quase meia noite. Coloco Kate Nash para tocar. Olho a quase imperceptível fumaça que sai do seu cigarro apagado. Já não falamos há horas. Silêncio quase irritante. Você bate a porta. Seu cheiro fica.
E. Alvarez


