segunda-feira, 14 de março de 2016
Prosa
terça-feira, 28 de junho de 2011
Helena, ascendência em câncer
...............Seca. Assim parecia ser Helena. Não se sabia ao certo. Acordava todo dia às 6hrs da manhã e seguia seus rituais. Ligava o som da sala. Sempre a mesma música. Sempre a mesma ópera. Ouvindo Turandot, Helena engolia uma fatia de pão integral com aquele queijo sem gosto e um copo de suco de laranja. Café não tomava. Dizia que fazia mal à saúde.
...............Helena era meio neurótica. Precisava de uma ordem para que a vida seguisse. Livros arrumados. Filmes distribuídos em ordem alfabética. Talheres brilhantes, guardados de acordo com o tamanho. Era virginiana. Gostava de bolo de fubá.
...............Tinha 38 anos. Solteira, sem filho. Era silenciosa. Não gostava muito de ficar perto das pessoas. Não tinha paciência suficiente. Amigos? O único havia ido morar em Barcelona. Casara no verão de 2009 com uma gringa. Helena morava sozinha. Tinha um gato.
...............Helena era arquiteta. Tinha seu escritório há 15 anos no centro de São Paulo, perto da Praça da República. Chegava lá todos os dias às 9hrs e saía às 16hrs. Gostava de usar o metrô. Conhecia a linha 3 como ninguém. Gostava de dar informações sobre os caminhos, sobre as linhas coloridas que cruzavam a cidade de São Paulo. Gostava de observar as pessoas. Sempre ouvia Johnny Cash no seu IPod.
...............Ninguém nunca ouviu falar muito de Helena. Ela não falava de si. Era trancada em seu mundo. Gostava de ficar em casa no fim de semana. Ninguém sabia, mas ela adorava uísque e conhaque; eram seus companheiros. Helena tinha dia até para sair da ordem. Era assim todo sábado. Cozinhava, bebia, cantava as músicas do Jonny Cash. Sabia todas de cor. ♫ I don't intend to do nothin' for nobody, no time… ♫ Depois, caia no sono e acordava no domingo quase às 3hrs da tarde. Ficava na cama até o começo da noite. Não gostava de domingos. Tirava o telefone do gancho.
...............A verdade é que Helena estava entediada naquela primavera de 2010. Vivia entre uma linha tênue de ordem e de caos. Era virginiana, mas seu ascendente em câncer começou a se manifestar naquele mês de outubro. A desordem e a vontade de largar-se por aí gritavam. A Lua havia entrado em aquário.
...............Quinta-feira à noite, quando Helena ia pra sua aula yoga, algo a fez sair da rotina. Decidiu não ir à aula, foi ao cinema. Nem gostava muito de filmes. Ficava entediada quase sempre. Foi num cinema na Rua da Consolação. Era uma semana dedicada aos filmes suecos. Tomou café.
...............Cinema já escuro. Sentou em uma das duas mesinhas do bar que havia no cinema. Percebeu logo que havia alguém na mesa ao lado. Não dava pra ver direito. O filme começou. Helena prestava atenção nos diálogos. Tentava não se entediar. Às vezes olhava de lado. Era curiosa.
...............O filme terminou e Helena seguiu meio inquieta para a Rua Haddock Lobo. Sentou no primeiro bar que viu. Não percebeu que o cara que estava ao seu lado no cinema havia a seguido. Desprovido de timidez, logo sentou na mesa que ela estava. Surpresa, tímida e afoita do lado de dentro, Helena tentou quebrar o gelo com um sorriso e com um “- sim, pode sentar”. Nada daquilo parecia real. Nada estava na ordem. Culpa da Lua.
...............A noite seguiu. Helena e o homem do cinema atravessaram a noite conversando. Tão quanto ela, ele só queria companhia pra um copo de uísque, palavras. Nada mais, nada menos. Helena contou histórias do tempo que fazia faculdade, e por mais desinteressantes que fossem, o homem do cinema não queria parar de ouvir.
...............Não ficaram bêbados, mas altos o suficiente para falarem um pouco um do outro. Às vezes sorriam, às vezes ficavam calados, às vezes Helena pedia ao garçom pra colocar Jonny Cash, às vezes ela lembrava do seu gato. Ele era mais calado. Talvez libriano, talvez de capricórnio, ou pra completar a confusão, poderia ser regido pela Lua.
...............A verdade é que nada disso importava. Eles estavam ali pelas palavras, pelo uísque. Ela soube pouco dele. Eram quatro da manhã. Noite findou, o uísque acabou, palavras secaram. Helena tinha que ir. Tinha que acordar às 6hrs, pegar a linha vermelha, ouvir Jonny Cash, alimentar o gato.
...............Mantiveram contato, afinal o santo de um havia batido com o do outro. Conversavam fim de noite pela internet, pouco usavam o telefone. Às vezes passavam semanas sem se falar. Ele era estranho, sumia. Já ela, tinha a Lua em escorpião. Ficaram alguns meses sem se ver, mas um dia resolveram se encontrar. Já era verão. A Lua estava convexa, minguante, disseminada em virgem.
...............Tinha que ser rápido. Helena não gostava de ficar na rua até tarde depois do trabalho. Ele tinha que voltar pra casa. Tinha esposa, tinha dois filhos. Marcaram no Parque Trianon. Melhor lugar para se fugir do calor do mês de janeiro.
...............Helena sempre ficava nervosa quando pensava na possibilidade de vê-lo. “Tremia como a antena de um inseto irritadiço” por dentro, mas era a mesma pessoa de aparência seca por fora. Talvez ele nem notasse, mas se sim, do que isso adiantaria?
...............Encontraram-se às 16:30hrs no parque e mais uma vez conversaram. As conversas banais de sempre. Riam, sentiam prazer em estarem juntos. Às vezes o silêncio vinha. Ficavam sem graça. Helena queria dizer coisas que sentia. Ter lua em escorpião e ascendência em câncer complicava a vida dela. Ter o sol em virgem parecia não adiantar quando estava ao lado dele. E qual era o sol dele? Ela nunca soube. O que importava é que ele tinha um muro ao redor de si. Era isso que Helena sabia.
...............Mais uma tarde passou, a noite chegou, mais um encontro, mais silêncios. Não se sabe de fato o que aconteceu naquele fim de tarde além das conversas. Helena nunca contou a ninguém. Talvez tivessem deitado no colo um do outro, talvez tivessem se beijado, talvez tivessem apenas conversado as bobagens que adoravam conversar. O que se sabe é que chegaram em casa na hora de sempre.
...............O fato é que é que nada disso importa. O que importa é que depois desse dia não se encontraram mais. Falam-se esporadicamente. Parecem acompanhar naturalmente as fases da Lua.
...............A vida de Helena segue. Acorda às 6hrs da manhã, pega a linha 3, ouve Jonny Cash, faz aula de Yoga as quintas-feiras, alimenta seu gato. O problema é que Helena tem ascendência em câncer.
E. Alvarez
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Carta à Maya
| São Paulo, entre novembro e dezembro de um ano qualquer. Minha [só por hoje] Maya, "Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo...” (Caio F.) ...............É verão e já não agüento mais ficar trancafiado neste apartamento. O calor de São Paulo nesta época é insuportável. Você sabe, fico enjoado demais no verão. Esse calor mexe com meus nervos! Pensei em sair, pegar um vento, ir atrás da Augusta ou da Madalena, mas nem elas me satisfariam nesta tarde. Adiei, adiei, mas te escrever tem sido uma urgência. A saudade é grande! Onde você está, Maya?? A vontade de te encontrar desespera. Já que isso não vai acontecer, escrevo. Ahhhh, Maya, esperei te encontrar, esperei te encontrar! Tentei até escrever para outras pessoas, mas não deu. Trocar o destinatário seria fácil, já o que sinto, não. Cartas podem ser amorosas, desesperadas, inconseqüentes, safadas ou tristes, mas devem ser primordialmente sinceras. Vejo carta como algo sagrado. Chego até ter ciúmes das palavras que escrevo. Sim, ainda sou daqueles que escrevem cartas. Hoje em dia, tudo é muito virtual, até o sexo, e pior, o amor. As pessoas transam com blogs, fotologs, mostram o casamento no orkut, se alimentam de ...............Calma, Maya, só por hoje tenha paciência de me ler. Vou começar a dizer algo que preste agora. Preste atenção, mas não ligue para a bagunça das idéias! Sou um homem totalmente desorganizado, até com as palavras. Entenda... desde ontem que faço tudo que tenho que fazer com os retalhos desta carta dentro de mim. Sufocava!! Essa é a verdade. Precisava mesmo escrever! Dói, sabe? Sei que não vai receber esta carta, como nunca recebeu nenhuma nestes quase últimos três meses. Eu nunca mandei, mas eu prometo que esta é a última. É a última, Maya, é a última, é a última mesmo. Perdoe-me se repito isso, mas eu preciso dizer, mesmo que só aqui, mesmo que só agora. Amanhã, eu guardo a carta, vou no cinema, trabalho feito um louco, vou num boteco e esqueço tudo. Eu já decidi. ...............Eu sei que nada disso que escrevo pode fazer sentido, mas eu preciso inventar alguma coisa nesta tarde... até exagerar!!! Quando se escreve, tudo pode!! Os vizinhos já não me deixam em paz, o telefone não para de tocar, a criança do lado grita, não consigo fazer o balanço da empresa. Não me concentro!!! Pior, acabou a vodka. O caos foi posto!! Espere, vou colocar Chico. Pronto. Chico. Chico, sem vodka? Não importa, vai sem vodka mesmo. Vou me enganar com aquele refrigerante de limão já sem gás que está na geladeira. Sim! Ainda sobre Chico... é ele que me faz lembrar melhor da sua existência. Você pode me perguntar que música dele me lembra mais você. Nunca diria, não aqui, não nesse pedaço de papel. Boto Chico e quase sinto você perto de mim. Foi assim durante dias. É assim agora. Amanhã, procuro na rede qualquer discografia dessas bandinhas novas, boto para tocar o dia todo, faço o balanço da empresa e tudo volta ser como era. É que hoje eu quero assim. Só hoje. Hoje é Maya. ...............Não me chame de louco. Posso até ser, mas sei que ninguém te inventou como eu. Nunca duvide disso. Já te vi? Não tenho certeza. Vi? Se vi, lembro da primeira vez. Lembro, lembro, lembro!!!! Ou lembro mais da segunda? Não sei. Eu sou homem e homem não organiza lembranças. Melhor assim, nesse emaranhado todo. Até gosto mais. Acho que me lembro do seu rosto. Dos detalhes dele? Não, nunca os senti. Sim, lembro bem dos olhos e o do sorriso. Estes filhos da mãe ainda estão impregnados na minha mente. Eles me fizeram inventar você. Amanhã eu os esqueço de vez. Já anotei na agenda. ...............Maya, eu tenho dores no estômago. Eu sei, já já passa. Amanhã. ...............Olha, a única coisa que te peço é que me deixe falar tudo. Sim, já disse, esta é a última carta. As outras estão aqui. Pensei em rasgar todas ontem à noite, mas não tive coragem. Lá estão as coisas que a gente não viveu. Lá tem aquela viagem pra perto que a gente não fez. Preciso proteger minhas fantasias, Maya, mesmo que em rascunhos. Não, não me tire esse direito! Só amanhã. Sobre as cartas, não se preocupe, não as jogarei fora. Talvez um dia você ache todas por aqui. Talvez um dia eu as leia para você. Não, isso não vai acontecer. Isso, confesso, nunca inventei. Maya, fica aí só mais um pouquinho e talvez eu te diga tudo. ...............Eu sei, eu sei que esta carta está tão mal escrita como tudo por dentro de mim esta tarde. Ainda bem que é a última. Eu já não aguentava mais. Você não as lia e eu não suportava mais teu silêncio. Eu queria te dizer tanta coisa, mas eu não sei como. Tudo que tenho é um estômago que dói, Chico, e a minha vontade de você. Acho que vou sair pra comprar vodka. Nem sei se já é noite. ...............Preciso acabar esta carta, mas preciso, antes de ir, e só hoje, falar dessa minha vontade de te ter... dessa minha vontade idiota de ficar, ao menos uma vez, mudo perto da tua orelha. Ah, como penso nisso, como penso na minha mão apertando tua cintura. Essa é a visão que mais invento. Cada noite invento um aperto diferente. Ah, Maya, Como vivo inventando o gosto da tua boca, de cada parte tua. Perdoe-me, é que tem uma música de Chico aqui que me deixa assim, dizendo essas coisas que não tem limite. ...............Você não sabe, à noite é a hora que mais te invento. Consigo ver teu corpo perto do meu. Fecho os olhos, sinto o cheiro dos suores se confundindo, vejo os movimentos em random das nossas pernas. Elas se entrelaçam, parecem dançar. A verdade é que penso nas coisas mais bonitas e nas mais sórdidas quando penso em você. Queria te levar lá no Horto Florestal. Já foi? Quando surto com a Paulista corro pra lá! Deitaria naquela grama macia com você fim de tarde. Faríamos silêncio. Depois de te levaria pra jantar. Não vou mentir, não sou romantiquinho o suficiente para só querer te levar pra jantar. Eu quero você antes e depois...quero pronta para o café da manhã. Meu Deus, isso soou meio Roberto Carlos, não foi? Releve. ...............Perdoe-me, Maya, não quero ser grosseiro, mas meu corpo também quer escrever sobre o seu. Só hoje, agora, amanhã não. Não vou repetir nesta, as coisas que escrevi nas outras cartas. É que eu inventava melhor teu corpo há dias atrás. Dava para sentir você me tocando. Ah, Tenho estado cansado de um corpo que não tive. Demoro a dormir, acordo cedo e vou trabalhar. Chego no trabalho, tomo aquele café HOR-RO-RO-SO, sorrio, leio o horóscopo [qual é a sua lua, Maya???] e até dou aquelas cantadas idiotas nas minhas colegas de trabalho. Fica tudo tão bem. ...............Essa carta está ficando cada vez pior. Preciso terminá-la urgentemente. Acho que disse tudo. É que não sei escrever direito. Perdoe-me, sou brega, até com as palavras. As outras coisas que escrevi estão nas outras cartas, já disse, não foi? Sabe que te escrevi um poema dia desses? Não ria! Fiquei envergonhado. Li só uma vez e depois guardei dentro do livro que mais gosto. De lá ele não sai. Sei. Nunca te entregarei. Ninguém pode ver, Maya, ninguém. É teu. ...............Vou sair agora, deu vontade de ir na Augusta. Dá tempo. Você sabe, tudo ainda dá tempo por aqui. ...............Diria mais, mas já é quase amanhã. E sobre amanhã, você já sabe. ...............Um beijo, o último, grande, tolo, inconseqüente, ...............Ahhhh, Maya, teu corpo é caminho para onde nenhuma estrada me leva. |
E. Alvarez
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Entre os sambas, uma saudade*
e não sei
se foi Chico
ou Cartola
que me fez
sambar teu nome.
E. Alvarez
*Escrito a sete mil pés sobrevoando Salvador. Voo 3454
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Minha Poesia
É a palavra coxa que quer dançar
É o verso contido
É o reverso que nasce
É o primeiro verso que ressoa
É o segundo que emudece
É a rima tímida
É o terceto que geme
É o quarteto inconsequente
É a estrofe excitada
É o silêncio que quer se desfazer em gozo
É coito interrompido
É o sexo que seca
É a saudade lírica que fica
É o emaranhado de versos
É nó singular que quer ser plural.
E. Alvarez
sábado, 28 de agosto de 2010
Branca Agonia
É amarração da linha que não quer se desdobrar em verso.
É reverso que não acontece.
É ausência da alegria do verso colorido.
É massacre que faz do tempo inimigo.
É grito mudo, vontade tímida.
É corpo vestido que quer se rasgar na nudez.
É a busca da rima fracassada.
É o sufoco humano que quer transbordar.
É medo do encontro com o que está atrás do espelho.
É o não sentir em paradoxos.
É o não encontro das antíteses.
É a agonia branca que não se desfaz.
E. Alvarez
sábado, 14 de agosto de 2010
Sonhos em [re] Versos Azuis

“Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo? Ou teria sido o contrário? Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não?” (Caio Fernando Abreu em “Por trás da vidraça”)
Às vezes acordo com a sensação de que sonhei que o teu corpo estava perto do meu. Acordo e vejo que nem eu estou no lugar. Nada está no lugar! Os copos, os pratos, os livros, meus filmes e muito menos as horas que vivo! Corro para o dia começar. [Re] invento-me para me concentrar nas notícias diárias do jornal ou para escrever mais uma petição ou lembrar onde está o carimbo que uso nas procurações. Acabo mesmo é esquecendo de me procurar no meio de tanta burocracia.
A verdade é que não quero abrir a janela do quarto para que a lembrança do teu corpo não saia rapidamente. É verdade que só quero escrever sobre a sua [não] lembrança.
Tomo café e lembro dos filmes que não assistimos. Permeio minhas falsas lembranças com as cenas de Laranja Mecânica que não vimos. Passaríamos horas falando dele, não?
É bom lembrar do que [não] aconteceu. Ou aconteceu e nem percebemos de fato? Foi sonho só meu regado a vinho? Excesso de cafeína? Excesso de Radiohead?
É bom não saber das noites que não seguimos Baco por medo de não sabermos acordar do nosso próprio sonho real. Era um blues ou um jazz que não ouvimos no fim de semana passado que não passou?
Não quero saber o quanto você parece comigo. Não quero saber do que já sei. Não quero me [des]concentrar dessas petições e procurações que tenho que fazer, pensando na gente e no cheiro que a gente [não] deixou um no outro. Já não sei o que aconteceu. Já [não] sei. Aconteceu?
Lembro que não te falei do meu ciúme silencioso quando você escuta a Cat Power. E aqui só me resta ouvir Noel Rosa. Lembro também dos nossos cafés, cigarros e reflexões matinais que não aconteceram naquela manhã de inverno chuvosa na cidade que nunca planejamos ir. [Não] lembro do livro de Kerouac que desfolhamos juntos. E o que seria de nós se soubéssemos que somos, tão quanto ele, loucos pra viver, loucos para falar, loucos para sermos salvos e desejosos de tudo ao mesmo tempo? É um perigo saber de tanta coisa assim. Fiquemos sem saber [?] O melhor é ser livre.
É noite, tenho medo de dormir. Sonhar com acasos ou ter medo de transformá-los em descasos.
Temos medos que gritam e só o inconsciente pode ouvir. Viramos escravos dele e não conseguimos ver os versos através das poucas horas que estamos juntos. Preferimos estar em silêncio. Sem saber o que falar. Sem saber o que sentir. [Não] queremos perceber. Perceber o que timidamente já percebemos? Ah, baby… “We're just two lost souls. Swimming in a fish bowl, Year after year, Running over the same old ground. What have we found? The same old fears...”.
Eu não sei o que está por trás da vidraça que nos amedronta. Não sei se sonhei com aquela estranha caixa de sentires que carregas.
Não sei se sonhei com aqueles versos brancos pintados de azul. Não sei se sonhei em “ser livre daquilo que nos prende”.
Vou dormir agora e [não] quero sonhar com a suave dor que você [não] deixou nos meus lábios nesta noite.
Eu quero [não] acordar deste [re] verso.
E. Alvarez
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Dialogue
- Hummm... when you grow up, honey, your're going to see that life ,indeed, is such a lovely mess.
- But...is it going to hurt?
- A lot.
- So, why should I be alive? Why do we grow up?
- Because life is also a lost piece of poetry, dear.
- Mom!! Great! Can I look for it? For the poetry?
- Yes, sweetheart , but now you're only six years old. Don't worry about that. Go to your toys.
- Ok, Mom. But what's poetry?
- Poetry , honey... is the only thing that save us from bad things when we grow up.
- I think I got it, mom. Poetry is like a pill, right?
- Yes, my little bee.
- Can I go now? Can play in the garden and talk to my flowers there?
- Sure! Have fun.
E. Alvarez
domingo, 4 de julho de 2010
Desenho Cor de Vinho

Helena é uma colega minha de faculdade. Quase sempre a vejo nos corredores. Sempre sozinha. Sempre ouvindo música. Ela estuda comigo há alguns anos, mas nunca me aproximei dela de verdade. Fizemos uns trabalhos juntos, mas a verdade é que ela nunca deixa ninguém se aproximar. Eu sempre me pergunto que cor tem o mundo dela. Mal sorri, mal fala em sala de aula. Tudo que ela mostra é aquele arrebatador par de olhos castanhos. Olhos quase claros, olhos quase escuros.
Eu sou curioso e na verdade queria saber mais sobre ela. Um dia andando por esse mundo virtual achei seu blog. Tudo tão cinza por lá, tudo tão cor de dúvida. Li vários de seus textos e percebi que ela tem predileção por cartas. Eram tantas cartas. Seriam cartas reais? Seriam cartas que ela já teria mandado? Ou apenas cartas pra ninguém? Encantei-me por Helena e por suas cartas. Tão quanto ela, vivo perdido no meio das palavras. Eu também escrevo, mas acho que jamais terei o talento que Helena tem com as palavras. Toda noite leio uma carta dela lá no blog. Tenho percebido que as últimas são sempre para mesma pessoa. Não tem nome. São apenas endereçadas a “V”.
A última carta é recente, com data deste mês ainda, deste último fim de semana na verdade. Comecei a ler e confesso que senti tanta coisa passar pela minha mente e corpo que tudo que eu queria era ligar para ela e comentar tal carta. Não tive coragem. Quem sou eu perto de alguém que escreve tão bem? Fiquei horas e horas com a carta na cabeça. Carta curta que dizia assim:
V,
O ventilador parece espalhar pelo quarto escuro o cheiro do nosso suor. Deito. O céu do meu quarto lembra o contorcer dos nossos corpos na macia cama branca. Meus olhos perturbados desenham imagens distorcidas do teu olhar lento e silencioso. Tento juntar esses ícones na minha mente. Imagens e mais imagens me invadem. Somos ícones puros que fomos invadidos violentamente por índices sensuais. Minha mente já não entende toda essa semiótica de cores e formas que se quebram na simbologia da saudade. Desenho o teu corpo quente e acolhedor sobre o meu com traços desencontrados. Sentada no corredor vejo costas cor de sépia em minha cama. São minhas. São tuas. Fica embaçado, mas ainda vejo, através de nuvens cinzas, o teu dedo deslizar neste ainda desfocado desenho. Lembro do vinho tinto, seco e de nome sutilmente endiabrado que esquentava mais ainda cada contorno dos nossos corpos. Passo o dedo na garrafa, procuro ainda o resto do vinho. Fecho os olhos e começo a criar um desenho tinto. Manchas. Teu desenho, meu desenho, nosso desenho. Desenho com bordas amassadas que nele tudo ainda se confunde. Que traços manchados são estes que aparecem? Quais são teus? Quais são meus? O que é nosso neste desenho cor de vinho?
Já é noite. Já está tarde. Volta. Vem desenhar comigo. Ainda há gotas naquela garrafa.
Helena
Depois de ler esta carta ainda fiquei ainda mais curioso em saber mais e mais sobre Helena. Quem seria V? Onde seria a praia das incertezas? Onde é e se existe eu não sei, mas sei apenas que, tão quanto Helena, eu vivo nesse eterno jogo com as palavras. Vivo das incertezas, das imagens, de lugares que fazem falta, de lugares que nem sei se existem. De sentimentos que passeiam através do tempo e da História.
Estou cansado agora. Já é tarde. Amanhã na aula, tomo coragem e falo com Helena.
E. Alvarez
terça-feira, 9 de março de 2010
Mariana e as Formigas
Vocês conhecem Mariana? É aquela menina que mora naquela cidade de interior. Aquela cidade que eu também não gosto, sabem? Na verdade eu nem sei porquê eu não gosto de lá. Tudo tão calmo, não é mesmo? Sim, então, eu estava falando de Mariana. Eu mesmo, nunca consegui entendê-la. Sempre tão estranha e calada. Quando sorri é por motivos que ninguém entende, eu , principalmente. Uma vez, um amigo meu me disse que Mariana é simplesmente aquilo que não consegue ser simples. Eu, como não entendo dessas coisas, não entendi.
Quem conhece Mariana, sabe que ela estranhamente gosta de observar as formigas. Ela sempre fica no quintal de sua casa. De lá, ela consegue ver as formigas mais de perto. Fica sempre curiosa em saber como podem ser tantas e sempre estarem uma atrás da outra, em ritmo acelerado. E pior, o que Mariana não entende também é que as formigas dão uma rápida parada para dizerem coisas umas às outras. Mariana não entende bem, mas de alguma forma chega a ter pena das pequenas criaturinhas que não param o dia inteiro. Tanta correria, não? Eu, que conheço Mariana, nunca entendo o porquê dela gostar de ver aquilo. Para Mariana, é bonito ver as formigas todas tão organizadas. Parece que Mariana fica feliz em saber que tudo está correto, dentro das longas filas que as formigas formam. Uma vez , lembro que, olhando para as formigas, ela me perguntou com uma carinha feliz: “É sempre assim, né?”. Eu, que sou curto e grosso, disse apenas que era. Ela não perguntou mais nada. Não é insistente.
À noite, quando o quintal fica escuro e as formigas somem, ela sempre tem vontade de chorar. Mariana nunca sabe explicar isso. Acho que ela é meio desajustada, sabe? Mariana não sabe explicar quase nada, mas ela sabe dançar e desenhar também. Ela dança como um vaga-lume tímido dentro de um pote melado de noite. Pote melado de noite? De onde tirei isso, meu Deus ?!! Ah, ela também vive com um caderninho na mão. Acho que é para se abanar do calor, não? Afinal, essa cidade é muito quente.
A mãe de Mariana não a entende. Acha que foi algum problema durante sua gravidez. Um dia ela até me perguntou se ela precisava de psicólogo. Eu tive pena da mãe e menti dizendo que não. Na verdade eu, que sou normal, sei que aquela menina não tem jeito mesmo. É troncha.
Mariana sempre é a primeira da fila em sua sala de aula. O que ninguém entende é que ela nunca fala nada. Para que ficar na frente e não perguntar nada a professora? Isso é coisa de menina burra. O que sei é que na hora do intervalo, Mariana sempre, sempre senta no mesmo lugar; embaixo de uma árvore que tem uma casa em cima. É uma casinha bem tímida, mas que já está quase toda corroída pelos cupins. Os alunos não brincam mais lá. Embaixo daquela árvore Mariana, sozinha, consegue se sentir bem melhor. São sempre vinte minutos de silêncio e também a hora que ela mais gosta na escola. Mariana algumas vezes sente vontade de subir na árvore e entrar na casa, mas sente medo e decide começar a procurar as filas de formigas no meio da grama.
Mariana tem rituais. Toma chá de camomila toda noite. Não gosta do gosto, mas sempre diz que se sente melhor. Eu, como não entendo nada de chás, não sei como ela pode tomar esse chazinho sem graça.
Mariana está terminando o ensino médio. Agora, já tem que pensar o que vai ser. Ela me disse que não sabe o porquê das pessoas quererem ir para uma faculdade. Eu, que sei o que é o correto a se fazer, digo que tem que ser assim mesmo e que a vida é assim. Ela sempre se contenta com a primeira resposta que ouve. Tadinha, não? Tenho pena.
Eu não sei bem o que Mariana vai fazer quando terminar o ensino médio. Eu não entendo nada nela. Eu nem sei o porquê de eu estar aqui falando sobre essa menina sem graça e com cara e jeito de gente estrangeira. Nada pior que ser um estrangeiro em terra desconhecida, não é mesmo?
Eu já estou quase perdendo a paciência de ouvir essas baboseiras de Mariana. Demora a abrir a boca mas sempre, sempre fala ou pergunta besteiras. O estranho é, mesmo que eu me aborreça com os comportamentos meio bizarros que essa menina tem, acho realmente bobo e engraçado quando ela diz que, quando ela realmente crescer de verdade, ela vai querer escrever sobre a vida das formigas.
E. Alvarez
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Parecemos não saber
“O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta, ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz, uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso, uma careta." (Trecho de Persona - Ingmar Bergman)
Algo sem eixo me torce por dentro. Não sei nomear, agora só sei sambar, sentir e musicalizar a sensação de ócio dócil que você me traz.
O vinho seco que despejas nos meus lábios os deixa quase dormentes de prazer. É aquela coisa da tensão amorosa que a gente parece ver só nos filmes. A campainha toca no fim da tarde. Quando você chega eu desligo a TV pois, já não quero mais um filme noir. Você me traz cor. As paredes da minha sala inevitavelmente sentem o teu azul que me transforma num blues feliz e levemente destoado. Olho-te quase sem piscar e em silêncio. Você acende seu cigarro e me pergunta se eu gosto do Ingmar Bergman e de imediato penso que o que eu quero mesmo é te entregar os meus morangos silvestres guardados na geladeira há dias. Assistimos à Persona e nosso mundo se (des) constrói em minutos. Juntos e ainda bobos lembramos e repetimos quase gritando, quase como amáveis idiotas, o trecho: “O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser.” Temos medo mas gargalhamos. Não sabemos o que realmente parecemos. A verdade é que dançando assim você me deixa sem jeito.
Somos assim quando estamos juntos e nada mais importa. É quase sete horas da noite e já estamos quase embriagados de nós mesmos. As palavras são desnecessárias. Comemos chocolate amargo entre os espamos e tomamos café quente depois de sexo latente. O nosso amor é insanamente racional e nosso sexo quase casual. Nosso suor se perde naqueles lençóis quase virginais. Em meio da nossa respiração desenfreada você me acalenta, e ao som do ruído gostoso da minha vitrola velha ouvimos nosso Chico. Logo você sorri me dizendo “lá vem esse cara de novo com essa história de Morena dos olhos d’água para quebrar mais ainda meu peito”. Eu não falo nada, apenas faço de conta que acho isso tudo muito bobo. Faço cara de descaso e deboche porque tenho medo que você venha novamente ou que não venha mais. Na verdade fico literalmente fraca dentro da nossa fortaleza de existência incoerente e quase conseqüente. Você quase desanima e vai mexer nos meus livros. Eu em silêncio permaneço no quarto que ainda nos exala. Você volta. Levanto. Preparo para você aquele ravioli de camarão quase apimentado. Você volta e me pergunta o que somos. Eu troco o silêncio por um fraco sussurro e digo que não somos nada de fato. Você repete o que eu digo três vezes para se convencer que precisa ir embora. Eu quase sorrio ironicamente. Sua ida já anuncia o choro cor de ferrugem. Você não quer ir. Eu não quero que você vá. Chico já não canta. O disco arranha. O inútil sonho de ser do Bergman acaba. Começamos a sentir o que realmente é. Você pede desculpas. Eu peço desculpas. As palavras faltam. O vinho acaba. O ravioli esfria. O chocolate derretido parece congelar. Você apaga o cigarro. Olho-te. Já é quase meia noite. Coloco Kate Nash para tocar. Olho a quase imperceptível fumaça que sai do seu cigarro apagado. Já não falamos há horas. Silêncio quase irritante. Você bate a porta. Seu cheiro fica.
E. Alvarez
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Acidente
Paixão decorrente
Desejo latente,
Ilusão dançante
Tempo inconstante
Dias andantes
Noites perturbantes
Com o coração desconcertante.
E. Alvarez
sábado, 8 de agosto de 2009
Sobre as Coisas que Eles (não) Sabem

(Photo by VJrockphotography)
" As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem, há o que são e nem sempre se mostra ..." (Caio F. In Morangos Mofados)
E lá vem ele com aquele jeitinho único. Jeito de mistura. Menino, homem... que no fim, não sabe o que causa a ela. Ele naquela delicadeza dele. Um silêncio típico,frieza com gosto de café. Uma eterna busca de questionamento sobre o quê ela é ou o quê os dois são quando estão (quase) juntos. Nem ele sabe. Nem ela. E para que saber? Uma sensibilidade de quem vive em meios dos versos, crônicas, sons, gostos, imagens cinematográficas e ausências que perpassam o tempo.... Ele e ela...às vezes numa coisa só. Um silêncio maquiado, palavras que dizem sem dizer. Aquela coisa que faz lembrar o cinema mudo. Tanta coisa não-vivida-não-entendida. Tantas palavras não ditas. O quase todo e devastador silêncio.
Às vezes me pergunto o porquê do distanciamento desses dois. Tanta coisa em comum, tanta literatura e tantas coisas meio caioclaricianas para se discutosentir . Tanto não pensar sobre um (não) querer.
É essa falta de (des) entendimento que a leva a (não) pensar sobre tantas (não) coisas. Sobre tantos textos não terminados sobre ele. Sobre tantas entrelinhas, sobre os (não)sentires. Sobre o telefone que toca e não se sabe bem o que dizer. Sobre o convite para um café não aceito. Sobre os medos mascarados, sobre as pausas... Sobre. Sobre.
E. Alvarez
domingo, 26 de julho de 2009
LUIZA
U nidade de pensamento e amor que de mim cuidava
I ngrata e libertadora a Morte que te levou de mim
Z eladora do querer
A mada e inesquecível geradora de Amor, descansa em Paz.




